A aviação mundial está diante da maior transição energética de sua história. Para garantir crescimento sustentável, atender às metas ambientais internacionais e manter a eficiência operacional, o setor depende de um combustível capaz de reduzir drasticamente as emissões. Nesse cenário, o SAF (Sustainable Aviation Fuel) surge como a alternativa mais promissora. Apesar de utilizar princípios semelhantes ao querosene de aviação tradicional, o SAF apresenta origem renovável, menor pegada de carbono e desempenho equivalente ou superior ao combustível fóssil.
Este artigo apresenta uma visão técnica e aprofundada do SAF, explicando suas rotas de produção, eficiência, custos, certificações e impacto na operação de aeronaves modernas.
1. O que é o SAF? Definição Técnica
O SAF é um combustível compatível com turbinas aeronáuticas que atende às especificações do Jet-A e Jet A-1, mas cuja produção utiliza matérias-primas de baixo impacto ambiental. Além disso, ele é classificado como “drop-in”, significando que pode ser misturado ao combustível fóssil sem necessidade de modificações no motor ou no sistema de abastecimento.
Principais características técnicas:
Redução de até 80% nas emissões de CO₂ ao longo do ciclo de vida.
Alto poder calorífico, equivalente ao querosene convencional.
Compatibilidade total com motores turbofan certificados pela ASTM.
2. A Necessidade do SAF na Aviação Moderna
O crescimento do tráfego aéreo global exige políticas robustas de sustentabilidade. A aviação representa aproximadamente 2,5% das emissões globais de CO₂, número que tende a aumentar sem intervenções tecnológicas e combustíveis limpos.
Fatores que impulsionam o SAF:
Metas da ICAO (CORSIA) para redução de carbono.
Compromisso da IATA de chegar ao Net Zero até 2050.
Pressão regulatória de governos e blocos econômicos.
Exigência dos passageiros por viagens menos poluentes.
A ausência de alternativas viáveis para aeronaves de grande porte — já que baterias elétricas ainda apresentam baixa densidade energética — torna o SAF a escolha inevitável.
3. Matérias-Primas Utilizadas na Produção do SAF
A produção do SAF varia conforme a rota tecnológica, mas todas compartilham uma característica central: utilizam matérias-primas renováveis ou resíduos.
3.1 Resíduos Orgânicos (HEFA)
A rota HEFA – Hydroprocessed Esters and Fatty Acids é atualmente a mais consolidada. Baseia-se em:
Óleos vegetais usados
Gorduras animais
Óleos de cozinha descartados
É a rota utilizada por empresas como Neste e World Energy.
3.2 Biomassa Lignocelulósica
Inclui restos de madeira, palha, bagaço de cana e materiais ricos em celulose. Pode ser processada mediante gasificação ou pirólise avançada.
3.3 Etanol ou Metanol de Segunda Geração
A biomassa é convertida em álcoois, que posteriormente são transformados em hidrocarbonetos via ATJ – Alcohol-to-Jet.
3.4 Captura de Carbono + Hidrogênio Verde (PtL)
A rota Power-to-Liquid (PtL) utiliza CO₂ capturado + hidrogênio produzido por eletrólise com energia renovável.
Essa rota tem potencial de se tornar a mais limpa do setor.
4. Principais Rotas Tecnológicas de Produção
4.1 HEFA – Hydroprocessed Esters and Fatty Acids
Tecnologia madura
Alta escalabilidade
Redução significativa de emissões
Custo competitivo em relação às demais
Representa mais de 90% do SAF produzido atualmente.
4.2 Fischer-Tropsch (FT)
Produção de hidrocarbonetos sintéticos a partir de:
Biomassa
Resíduos sólidos
Gases industriais
É uma tecnologia muito eficiente, com excelente qualidade do combustível.
4.3 ATJ – Alcohol-to-Jet
Processo mais flexível em matéria-prima, mas depende da disponibilidade de etanol/biometanol de baixa emissão.
4.4 PtL – Power-to-Liquid
A rota mais promissora para longo prazo, pois utiliza eletricidade renovável.
Emissões quase nulas
Alto custo atual
Forte apoio de governos europeus
5. Desempenho Técnico e Eficiência do SAF
O principal atributo técnico do SAF é a equivalência funcional com o querosene de aviação.
5.1 Comportamento em motores turbofan
Ignição similar
Estabilidade térmica elevada
Combustão mais limpa
Menor formação de fuligem
Motores modernos, como PW1100G-JM, Leap-1A e Trent XWB, funcionam perfeitamente com misturas autorizadas de SAF.
5.2 Misturas Certificadas
O padrão ASTM D7566 autoriza misturas de até 50% com Jet A-1. No entanto, a indústria está em testes avançados para atingir 100% SAF até 2030.
5.3 Impacto no consumo
De modo geral, o consumo é muito semelhante ao querosene fóssil, embora alguns SAF apresentem levemente menor densidade, o que exige ajustes na massa abastecida.
6. Benefícios Ambientais
O SAF reduz emissões em todo o ciclo de vida, não apenas durante o voo.
Principais benefícios:
Redução de até 80% de CO₂
Menos material particulado
Menor formação de contrails persistentes
Redução de NOx conforme rota utilizada
Outro ponto relevante é a economia circular: resíduos voltam para a cadeia produtiva.
7. Custos, Escalabilidade e Desafios
Apesar do potencial, o SAF ainda enfrenta desafios significativos.
7.1 Custo de Produção
O SAF custa atualmente entre 2 e 5 vezes mais que o querosene comum. A diferença depende da rota, disponibilidade de matéria-prima e região de produção.
7.2 Disponibilidade Global
A produção atual cobre menos de 1% do consumo mundial de aviação.
7.3 Logística
É necessário adaptar:
Oleodutos
Tanques de armazenamento
Sistemas de mistura nos aeroportos
7.4 Competição por matérias-primas
Resíduos e biomassa também são usados em outros setores, como transporte marítimo e indústria química.
8. Regulamentações e Certificações
Toda produção de SAF precisa ser certificada pela ASTM D7566, garantindo que o combustível atenda às propriedades essenciais:
viscosidade
ponto de congelamento
estabilidade térmica
resistência à oxidação
Além disso, programas como CORSIA, RED II e Fit for 55 incentivam seu uso e definem limites de pegada de carbono.
9. Perspectivas Futuras
A transição para o SAF é irreversível. Entre as tendências:
Expansão da rota PtL
Aumento da produção global
Certificação de combustíveis 100% SAF
Incentivos fiscais e subsídios governamentais
Parcerias entre companhias aéreas e produtores
A expectativa da IATA é que o SAF represente 65% da redução de carbono da aviação até 2050.







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