Um ícone tecnológico que o mundo não conseguiu repetir
O Concorde permanece como um dos maiores feitos da engenharia aeronáutica. Em operação entre 1976 e 2003, o jato supersônico anglo-francês uniu velocidade, eficiência relativa para a sua classe, soluções aerodinâmicas avançadas e sistemas eletrônicos pioneiros. Embora a aviação moderna tenha evoluído em materiais, automação e eficiência energética, nenhuma aeronave comercial produziu, até hoje, a combinação singular de desempenho operacional, velocidade sustentada e precisão aerodinâmica que definiram o Concorde.
Neste artigo, apresento uma análise técnica detalhada explicando por que o Concorde permanece insuperável mesmo após cinco décadas de seu primeiro voo comercial.

1. Engenharia Supersônica: Aerodinâmica Imbatível
1.1 O formato delta: a chave para Mach 2
O Concorde utilizava uma asa delta fina de alto alongamento, com grande flecha e sem superfícies móveis tradicionais como flaps ou slats.
Esse design permitia:
Baixa resistência aerodinâmica em regimes transônicos e supersônicos.
Elevada estabilidade longitudinal a velocidades superiores a Mach 1,5.
Redução de arrasto de onda, crítico para cruzeiro supersônico sustentado.
1.2 Nariz inclinável: solução para ângulo de ataque elevado
Durante a decolagem e o pouso, o Concorde precisava operar com ângulos de ataque muito altos devido ao perfil da asa.
O nariz móvel (“droop nose”) foi essencial para:
Melhorar a visibilidade dos pilotos.
Manter a operação segura em aproximações lentas.
Otimizar a transição entre regimes aerodinâmicos.
1.3 Controle por “elevons”
Sem lemes separados de ailerons, o Concorde utilizava elevons, superfícies combinadas que ajustavam:
arfagem,
rolagem,
estabilidade durante aceleração para Mach 2.
Essa solução permanece rara na aviação comercial.

2. Propulsão: motores imbatíveis até hoje
2.1 O Rolls-Royce/Snecma Olympus 593
O Concorde era equipado com quatro motores turbojatos pós-combustores — tecnologia considerada extrema para aviação civil.
As características marcantes incluíam:
Pós-combustão (afterburner) para decolagem e transição supersônica.
Compressor axial puro, projetado para regimes de alta pressão e temperatura.
Eficiência surpreendente para a época, mesmo com alto consumo relativo.
2.2 Admissão de ar variável (intake control system)
Um dos sistemas mais sofisticados do Concorde.
A entrada de ar ajustava sua geometria para reduzir a velocidade do fluxo antes de entrar no compressor.
Resultados:
Redução de velocidade do ar de Mach 2 para cerca de Mach 0,5.
Estabilidade do compressor em regime supersônico.
Aumento de eficiência global do motor.
Poucas aeronaves militares possuem intakes tão avançados. Nenhuma aeronave civil moderna dispõe de algo comparável.

3. Estrutura e Materiais: um desafio térmico único
3.1 Temperaturas extremas
Voando a Mach 2,04, a fuselagem do Concorde chegava a 127 °C em algumas regiões.
Soluções adotadas:
Uso de alumínio Duralumin especialmente tratado.
Expansão térmica controlada de até 20 centímetros no comprimento da aeronave.
Janelas com camadas térmicas especiais.
3.2 Limites para materiais modernos
Mesmo aeronaves como o Boeing 787 e o Airbus A350, feitos de compósitos avançados, não alcançam condições térmicas que justifiquem certificação supersônica.
Ou seja: os materiais modernos são excelentes para eficiência sub-sônica, mas não estão preparados para operações sustentadas em Mach 2.

4. Performance: números ainda imbatíveis
4.1 Velocidade
Cruzeiro: Mach 2,04 (2.180 km/h).
Altitude típica: 55.000 a 60.000 pés.
Duração Londres–Nova York: 3h30–3h50.
Até hoje, nenhum jato comercial igualou estes números.
4.2 Subida até o teto operacional
A performance incluía:
Aceleração transônica com pós-combustão.
Subida escalonada para redução de arrasto.
“Cruzeiro escalonado” conforme o peso diminuía.
4.3 Eficiência relativa
Apesar do consumo elevado, para a tecnologia da época o Concorde era surpreendentemente eficiente.
Comparando aeronaves:
| Aeronave | Consumo por passageiro | Velocidade |
|---|---|---|
| Concorde | Alto | Muito superior |
| A350/787 | Baixo | Sub-sônico |
| Aeronaves supersônicas atuais (propostas) | Muito alto | Inferior ao Concorde |

5. Sistemas de Controle: o proto fly-by-wire analógico
Embora não fosse digital, o Concorde utilizava um fly-by-wire analógico, extremamente avançado:
Transmissores hidráulicos controlados eletricamente.
Estabilidade ativa, especialmente em voo supersônico.
Redução automática de carga em ângulos específicos.
Esse sistema antecipa conceitos adotados décadas depois em aeronaves como o Airbus A320.
6. Operação: por que era tão complexo?
6.1 Envelope de voo estreito
A aeronave tinha:
Limite térmico rígido (127 °C).
Janela aerodinâmica estreita.
Controle preciso de centro de gravidade por transferência de combustível.
6.2 Requisitos de pista
Ao contrário do mito, o Concorde não precisava de pistas extraordinárias, mas exigia:
pavimentos preparados para temperaturas das exaustões,
equipamentos anti-foreign object damage (FOD),
separações específicas no tráfego aéreo devido ao boom sônico.
7. Por que ninguém conseguiu substituir o Concorde?
7.1 Custo operacional elevado
Mesmo com bilhetes caros, o Concorde tinha:
consumo elevado,
capacidade limitada (100 passageiros),
manutenção intensiva.
7.2 Restrições ambientais
A operação supersônica sobre áreas povoadas permanece proibida, o que inviabiliza rotas rentáveis.
7.3 Ausência de mercado sustentado
A aviação corporativa está disposta a pagar por velocidade, mas o público geral não.
Para operar comercialmente, o modelo financeiro não se sustenta.
7.4 Projetos modernos não alcançam o Concorde
Empresas atuais como Boom e Aerion:
planejam aeronaves mais lentas,
sem pós-combustão,
com aerodinâmica menos agressiva,
com limites ambientais muito mais restritivos.
Nenhuma delas promete velocidade a Mach 2.
8. O Concorde é insuperável? Sim — e pelos seguintes motivos
Foi o ápice da engenharia supersônica civil.
Nenhum motor comercial atual possui pós-combustão certificada.
O nível de complexidade aerodinâmica permanece único.
O envelope operacional é inigualável.
Não existe demanda suficiente para justificar novos modelos.
O Concorde permanece, portanto, um marco técnico e histórico que a engenharia moderna ainda não conseguiu — e provavelmente não tentará — replicar.


