Um processo crítico, mas invisível para o passageiro
Para a maior parte dos passageiros, o despacho de bagagem parece um ato simples: entregar a mala no check-in e recuperá-la no destino. Entretanto, por trás desse procedimento existe uma cadeia complexa de equipamentos, servidores, sistemas de rastreamento, equipes especializadas e algoritmos de classificação. Toda essa estrutura precisa operar com precisão milimétrica para evitar extravios, atrasos ou danos.
Neste artigo, apresento uma análise técnica aprofundada da jornada de uma bagagem, explicando como ela é processada, quais tecnologias são utilizadas, e por que falhas ainda ocorrem mesmo em aeroportos modernos.
1. Etapa 1 — Check-in e geração da bag tag
O processo começa no momento em que o passageiro entrega a mala no balcão ou no self bag drop.
1.1 Emissão da bag tag
A etiqueta é composta por:
Código de barras linear
Bag tag number (código numérico único)
Código IATA do aeroporto de conexão e destino
Número do voo
Informações de roteamento
Cada etiqueta é registrada no sistema central da companhia aérea e sincronizada com:
DCS (Departure Control System)
BHS (Baggage Handling System) do aeroporto
SITA ou Amadeus (plataformas globais de rastreamento)
1.2 Importância do bag tag
A confiabilidade do código de barras depende de:
impressão correta,
resistência ao atrito,
posicionamento adequado na alça da mala.
Uma má impressão pode comprometer toda a leitura automática posteriormente.
2. Etapa 2 — Entrada no BHS: o coração do sistema
O Baggage Handling System (BHS) é a infraestrutura responsável por transportar, identificar e classificar todas as bagagens despachadas.
2.1 Componentes principais
O BHS é composto por:
esteiras principais,
esteiras de aceleração,
balanças automáticas,
portais de leitura,
sorter (sistema classificatório),
elevadores e túneis,
carrosséis de triagem.
Seu funcionamento é coordenado por um PLC (Programmable Logic Controller) e softwares de supervisão.
2.2 Leitura automática
Ao entrar no BHS, a mala passa por um portal de scanners que executa:
leitura óptica 360° do código de barras,
registro da localização exata no sistema,
vinculação da mala ao voo e ao horário estimado de carregamento.
Se a leitura falhar, a bagagem é desviada para uma área chamada MES (Manual Encoding Station), onde um operador digita o código manualmente.
2.3 Fluxo básico no BHS
Mala entra na esteira
Passa pelo portal de leitura
É encaminhada para o sorter
O sorter envia para a área correspondente ao voo
Técnicos levam as malas aos contêineres (ULDs) ou carretas
3. Etapa 3 — Triagem automática (sorter) e roteamento
O sorter é um mecanismo avançado que direciona cada bagagem ao local correto com base em informações eletrônicas.
3.1 Como funciona o sorter
Ele pode operar por diferentes tecnologias:
Tilt tray sorter
Cross belt sorter
Pushers pneumáticos
Sistemas de roldanas direcionáveis
O algoritmo calcula:
destino do voo,
horário de decolagem,
conexão do passageiro,
prioridade (bagagem “late”, “rush” ou normal).
3.2 Bagagem “late” e “rush”
Late baggage: chega tarde ao BHS e precisa “furar a fila” para chegar à aeronave.
Rush baggage: bagagem atrasada em conexão, enviada rapidamente por canais de prioridade para não perder o novo voo.
Esses dois tipos concentram grande parte dos extravios.
4. Etapa 4 — Inspeção de segurança (EDS)
Todas as bagagens passam obrigatoriamente por inspeção de segurança (ETD ou EDS) antes de serem liberadas para o porão.
4.1 Níveis de inspeção
Nível 1: Triagem automatizada por raio-X de alta resolução
Nível 2: Operador humano analisa imagem suspeita
Nível 3: Inspeção física ou sistemas CT avançados
4.2 Impacto no fluxo
Mala com suspeita:
é desviada para inspeção adicional,
pode quebrar a sequência temporal do roteamento,
pode atrasar e perder o carregamento se não houver tempo.
5. Etapa 5 — Consolidação e montagem dos ULDs ou carretas
Após a triagem, as malas são levadas para a área de consolidação.
5.1 Montagem de ULDs
Em aeronaves grandes, as malas são armazenadas em ULDs (Unit Load Devices):
contêineres metálicos ou de fibra,
específicos para cada modelo de aeronave,
etiquetados por voo e destino.
5.2 Em aeronaves narrow-body
A bagagem é organizada diretamente em:
carretas,
carrinhos,
cestos manuais.
A organização deve seguir balanço de peso e instruções de segurança.
5.3 Margens de tempo
Baixas margens operacionais são o principal motivo de falha:
atrasos no check-in,
falhas de leitura,
inspeção de segurança prolongada,
mau posicionamento nos ULDs.
6. Etapa 6 — Carregamento no porão
Esta etapa envolve equipes do pátio, operadores de ULDs, motoristas de trator e supervisores de rampa.
6.1 Procedimento de carregamento
Verificação do número de malas
Conferência cruzada com o manifesto eletrônico
Inserção dos ULDs no porão com uso de sistemas hidráulicos
Amarração e travamento
6.2 Onde ocorrem falhas
Erro humano ao posicionar ULD incorreto
Intercâmbio de carretas
Bagagens late acumuladas que não chegam a tempo
Comunicação falha entre BHS e equipes de pátio
7. Por que o sistema falha? Causas técnicas e operacionais
Mesmo com tecnologias avançadas, extravios ainda acontecem. As causas mais frequentes incluem:
7.1 Falhas na leitura do código de barras
etiqueta danificada,
tinta borrada,
tag mal posicionada,
objetos pendurados interferindo.
A mala segue para triagem manual, aumentando o tempo total.
7.2 Conexões curtas demais
Quando a conexão é inferior a 50 minutos em aeroportos com BHS complexo, o risco aumenta significativamente.
7.3 Problemas mecânicos no BHS
esteiras paradas,
bloqueios por objetos,
queda da mala entre módulos,
falha em sensores ou motores.
7.4 Atraso na inspeção de segurança
Mais comum em períodos de pico: férias, feriados, réveillon, inverno na Europa etc.
7.5 Erro humano no pátio
Mesmo com automatização, decisões humanas ainda dominam o carregamento:
malas colocadas na carreta errada,
ULD enviado ao porão incorreto,
bagagens ignoradas por confusão de prioridade.
7.6 Overload do sistema em horários de pico
Quando a quantidade de voos simultâneos ultrapassa a capacidade do BHS, as filas internas aumentam.
7.7 Falhas nos sistemas de TI
Falhas no:
DCS,
SITA BagManager,
servidores do BHS,
rede de dados,
podem “desalocar” bagagens momentaneamente.
7.8 Conexões internacionais complexas
Bagagens que precisam:
passar por imigração,
mudar de terminal,
transitar entre companhias diferentes,
tendem a falhar mais.
8. Como as companhias estão tentando reduzir falhas
8.1 RFID em vez de código de barras
Companhias como Delta e Emirates já utilizam RFID em escala comercial.
Vantagens:
leitura praticamente instantânea,
sem necessidade de visada óptica,
rastreamento contínuo.
8.2 Sistemas de rastreamento avançados (BRS)
O Baggage Reconciliation System impede que:
mala viaje sem passageiro,
ULD incorreto seja embarcado,
bagagem sem identificação siga adiante.
8.3 Automação total do BHS
Projetos modernos utilizam:
robôs para triagem,
sorter inteligente com IA,
simulações preditivas de congestionamento.
8.4 Aplicativos para passageiros
Hoje, o passageiro pode rastrear a bagagem em:
aplicativos proprietários de companhias,
Apple Wallet (Delta),
sistemas globais (SITA WorldTracer).
Um processo complexo que ainda depende do fator humano
O despacho de bagagem é uma operação altamente técnica, baseada em sensores, algoritmos e coordenação entre sistemas. Entretanto, por mais avançada que a infraestrutura seja, ainda existe dependência do fator humano — especialmente em conexões, transferências internacionais e carregamento no porão. Com a expansão de RFID, automação e IA, a tendência é que falhas diminuam progressivamente, mas ainda estamos longe do extravio zero.
Quais as malas usadas por pilotos?
Saiba em nossa matéria especial sobre “Malas de Tripulantes“






