1. Introdução
O custo do combustível é, historicamente, o maior ou o segundo maior componente das despesas operacionais das companhias aéreas. Em diversos cenários, ele representa 25% a 40% do custo total por assento-quilômetro oferecido (CASK). Entretanto, muitos passageiros desconhecem os fatores que tornam o combustível de aviação — especialmente o Jet A-1 — substancialmente mais caro que a gasolina automotiva ou o diesel rodoviário.
Ao analisar esse tema sob uma perspectiva técnica, percebe-se que não se trata apenas do valor do petróleo no mercado internacional. O preço final reflete requisitos químicos rigorosos, infraestrutura extremamente controlada, riscos de contaminação, regras ambientais, impostos e desafios logísticos globais.
Esta matéria apresenta uma visão completa e estruturada desse cenário.
2. O que exatamente é o combustível de aviação?
Apesar de visualmente semelhante ao diesel, o Jet A-1 é um combustível altamente refinado e controlado. Ele segue especificações rígidas definidas por normas como:
ASTM D1655 (padrão internacional)
DefStan 91-091 (utilizado no Reino Unido)
ANP 37/2009 (padrão brasileiro)
Propriedades críticas que encarecem o produto:
Baixa temperatura de congelamento: –47 °C no Jet A-1
Estabilidade térmica elevada
Baixo teor de enxofre
Ponto de fulgor controlado (mínimo de 38 °C)
Ausência quase total de impurezas (água, partículas, metais)
A complexidade química para atender todos esses requisitos aumenta significativamente o custo de produção, uma vez que exige processos adicionais de hidrotratamento e filtragem.
3. Por que o combustível de aviação é tão caro?
3.1. Exigência de pureza e processos de refino avançados
A aviação trabalha com tolerância zero a falhas. Uma quantidade mínima de água, por exemplo, pode congelar em altitude e bloquear linhas de combustível. Partículas sólidas podem gerar depósitos em componentes quentes do motor.
Por isso, o Jet A-1 passa por:
Hidrotratamento profundo para remoção de aromáticos e enxofre.
Filtragem multietapas com filtros coalescentes e separadores.
Análises laboratoriais em cada etapa da cadeia logística.
Cada um desses passos adiciona custo.
3.2. Logística altamente controlada
O transporte de Jet A-1 exige uma cadeia praticamente hermética.
A logística inclui:
Oleodutos exclusivos (sem compartilhamento com gasolina, diesel ou etanol).
Caminhões dedicados, com tanques certificados.
Armazenamento em tanques com atmosfera inerte, para evitar contaminação.
Filtros “monitor” e micronic no abastecimento das aeronaves.
Um único incidente pode causar contaminação em grande escala, gerando prejuízos milionários e exigindo cuidados adicionais.
3.3. Custos aeroportuários e taxas de infraestrutura
Ao contrário de postos de combustível terrestres, os aeroportos operam com infraestrutura de abastecimento complexa, incluindo:
Farmas de combustível dedicadas
Sistemas subterrâneos “hydrant”
Caminhões full-service com filtros, bombas e válvulas especiais
Monitoramento 24 horas
A manutenção desses sistemas — somada às taxas cobradas por administradores aeroportuários — encarece o litro final entregue à aeronave.
3.4. Volatilidade do barril de petróleo
O combustível de aviação responde diretamente às oscilações do Brent, o petróleo de referência internacional. Em períodos de instabilidade geopolítica, guerras ou restrições de oferta, o preço sobe rapidamente.
Além disso, as companhias aéreas frequentemente utilizam hedge, uma forma de proteção financeira que também afeta o custo final.
3.5. Impostos e regulações ambientais
O impacto tributário varia conforme o país. No Brasil, por exemplo, o ICMS pode elevar o custo do litro de modo significativo, especialmente em rotas domésticas.
Regulações ambientais também pesam:
Redução obrigatória de emissões
Regras para adição de SAF (Sustainable Aviation Fuel)
Programas como CORSIA, da ICAO
Tais medidas exigem investimentos diretos no refino e na mistura de combustíveis.
3.6. Demanda concentrada e pouca competição
O mercado de combustíveis de aviação é altamente concentrado: poucas refinarias e distribuidoras dominam a cadeia. Como o volume é elevado, mas a oferta é limitada, isso reduz a competitividade e mantém os preços altos.
4. Diferença entre Jet A-1, AVGAS e SAF
É importante compreender que o termo “combustível de aviação” abrange categorias distintas, cada uma com seu custo próprio.
4.1. Jet A-1: o padrão comercial
Utilizado em:
Aeronaves comerciais
Executivas (turbofan e turboélice)
Helicópteros modernos
É o combustível mais consumido no mundo.
4.2. AVGAS 100LL: o mais caro por litro
Usado em aeronaves de pequeno porte (motores a pistão).
Ele é mais caro que o Jet A-1 porque:
É produzido em quantidades muito menores
Exige formulação específica com chumbo tetraetila
A demanda global está em declínio
4.3. SAF: o combustível sustentável
Apesar de ambientalmente vantajoso, o SAF ainda é caro porque:
A produção é limitada
As rotas químicas são complexas (HEFA, FT-SPK, ATJ, entre outras)
As refinarias ainda operam em escala reduzida
O SAF pode custar entre 2 e 4 vezes mais que o Jet A-1 tradicional.
Entenda o que diz a ICAO sobre o SAF.
5. Como funciona a formação de preços no aeroporto?
5.1. Cadeia típica de precificação
O valor final por litro geralmente inclui:
Custo do petróleo
Processamento no refino
Armazenamento em terminais
Transporte até o aeroporto
Armazenamento em farmas aeroportuárias
Taxas aeroportuárias (integração, hidrante, segurança)
Margem da distribuidora
Impostos estaduais e federais
5.2. Por que o combustível fica mais caro no Norte e Nordeste?
A distância das refinarias, associada a limitações logísticas de oleodutos, obriga um maior uso de transporte rodoviário, que é mais caro e arriscado.
6. A relação entre eficiência das aeronaves e consumo de combustível
6.1. Motores mais eficientes reduzem a sensibilidade ao preço
Modelos modernos como:
LEAP-1A/1B
PW1100G
GE9X
Rolls-Royce Trent XWB
consomem menos combustível e reduzem o impacto financeiro para as companhias, embora o combustível ainda seja determinante na estrutura de custos.
6.2. Peso, aerodinâmica e alcance interferem diretamente
Aviões mais leves ou com asas de maior eficiência apresentam menor consumo específico, mitigando parte da volatilidade do preço do Jet A-1.
7. Impactos diretos no passageiro
O preço elevado do combustível afeta tarifas aéreas de diferentes maneiras:
Aumento de tarifas em rotas longas, onde o combustível representa mais da metade do peso da aeronave.
Cobrança de adicionais, especialmente bagagem em rotas domésticas.
Redução de frequências, quando o preço do petróleo sobe abruptamente.
Companhias também ajustam estratégias de malha e priorizam aeronaves de nova geração.
Conheça o: Futuro da Aviação Sustentável.





